Texto curatorial por Yná Rodrigues Olfenza e Carmen Mawu Lima

MARSHA EM MONUMENTA parte do resgate político das construções de Marsha P. Jhonson, que marca a história do movimento LGBTQIA+ possibilitando outros caminhos de fortalecimento aos processos de políticas públicas para toda comunidade até os tempos atuais. Sua trajetória se destaca pelas muitas formas de acolhimento que suas movimentações proporcionaram, dimensionando outras perspectivas para nossa população, onde nos debruçamos para propor o fio condutor de construção do festival. Suas iniciativas de acolhimento com a S.T.A.R. (Street Transvestite Action Revolutionaries), mais especificamente, refletiram diretamente na construção do pensamento curatorial de MONUMENTA, onde pautamos as potências geradas através do desenvolvimento de redes de acolhimento e exaltamos as políticas afirmativas que estão sendo geradas por nós cotidianamente. 

Existe uma relação de escala dentro da construção de um monumento que é pautada no território, já o que o estrutura é construído muito antes dele tomar suas dimensões, ser erguido ou cimentado. As estruturas do monumento são políticas, e transborda apenas um marco na história, sendo memórias de resistência e orgulho bem como cicatrizes e holofotes de violências.

“A treta é sobre o território”, como diz Brisa Flow  em “Jogadora Rara”.

Como construir uma monumenta? Como inverter o que estrutura o monumental?

Nas eleições 2020 representaram um marco histórico da luta transvestigenere nas câmaras municipais pelo Brasil.  O aumento de 275%* no número de candidatos a vereador travestis e transexuais eleitos representa um levante transvestigenere, racializade e indigena que vem restruturando as escalas do país, subvertendo as relações  de restituição da condição deshumana no país que mais mata pessoas trans no mundo. 

São articulações que vem reverberando a partir do movimento de grupos como FONATRANS, ANTRA, bem como casas de acolhimento como CasaNem no Rio de Janeiro, Casa1 e Casa Florescer em Sâo Paulo, Casa Transformar no Ceará e tantas outras.  Não só invertemos as escalas das estruturas que nos limitam na sociedade, desafiando biologia, arquitetura, arte, política e qualquer disciplina que se impõe em nossas corpas. Utilizamos das nossas oralidades e musicalidades como ferramenta de combate e acolhimento aos nossos corpos. São essas práticas que nos possibilitam resistir, vivenciar e transformar nosso cotidiano e a nossa história, construindo monumentos para nós mesmas.  Levantando monumentos com nossas vidas  exaltando a vida como monumento.

Talvez a tomada não seja apenas uma ocupação, mas uma transmutação de essas estruturas de poder que nos encarceram em métricas cisgêneras.  Nosso monumento exalta o íntimo, outros lugares que não apenas os de sobrevivência. 

video “nascide du amor, para morte do seu respirar.” – Ferrerin 

O monumento se volta para o ambiente mais íntimo, nossas corpas, inverte a magnitude para as nossas ações cotidianas. A monumenta a intimidade. A construção da tomada de posse da nossa subjetividade. 

*Passou de 8 vereadores em 2016 para 30 nas eleições de 2020. fonte ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Este projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal e da Lei de Incentivo à Cultura do Distrito Federal

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